Texto: Lidiane Moura
Fotos: Charone Borato
Não é de hoje que ouvimos o quanto as mudanças climáticas tem causado impactos negativos nas lavouras cafeeiras. No Brasil não é diferente, desde 2010, as temperaturas nos municípios produtores de café aumentaram 1,2 °C durante o período de floração; projeções indicam mais dias de temperaturas extremas (acima de 34 °C) até 2050, segundo a modelagem climática da plataforma Gro Intelligence.
Com o recorde de calor no mundo e a alta amplitude térmica no Brasil, há mudanças do ciclo de crescimento da planta do café e o estágio da florada pode ser o mais atingido, impactando na hora de colher os grãos devido a um estresse térmico, que resulta no surgimento de várias floradas, ou mesmo com a queda de chumbinho, como tem ocorrido.
Embora bonitas e aromáticas, as muitas floradas não garantem uma granulação padronizada e o produtor se atrapalha na hora de colher, podendo atrasar o trabalho. “As várias floradas de setembro evidenciam que a safra de 2024 pode ser super irregular e comprometida por causa da fase do florescimento e frutificação que ocorrem nos próximos meses”, explica o professor da Universidade Federal de Lavras (Ufla), José Donizeti Alves.
José Donizeti detalha que o próximo ciclo ainda é uma incógnita e que o cafeicultor terá de se desprender do calendário físico e monitorar o comportamento da planta. Há chances, inclusive, da próxima safra se comportar da mesma forma que a de 2022/2023. “São três anos de safras mais baixas e será que podemos esperar um ano melhor? Isso nos faria pensar que a bienalidade do café também está mudando. Com clima adverso, o café vai ter que tolerar os estresses hídrico e térmico, o que requer um custo e atenção altas”, avalia ele.
O produtor Alessandro Alves Hervaz, da região da Mantiqueira de Minas, em entrevista disse: “nos últimos dois anos tivemos uma safra mais baixa, resultado de problemas passados, esse ano a perspectiva era de uma safra muito boa. As floradas não vieram de acordo com a expectativa, pois era esperado uma super safra, eu ainda acredito numa boa safra. O que preocupa muito é o clima que foi nos últimos dois meses (novembro e dezembro), com interrupção das chuvas e uma temperatura muito alta, onde está ocorrendo a queda de chumbinho.” Alessandro destaca ainda que graças as boas práticas com bastante matéria orgânica que protege o solo, isso tem diminuído os impactos em suas lavouras. Mas ainda ressalta, “o medo agora é dos próximos meses de janeiro, fevereiro e março, onde a planta precisa de mais chuva, está terminando a granação e se continuar com altas temperaturas e pouca chuva, além da queda de chumbinhos, isso impactará diretamente o fruto, com mal granação e peneiras baixas e consequentemente, uma safra mais baixa pelo terceiro ano consecutivo.”
Com o clima extremo se tornando mais frequente, o tempo entre os estresses climáticos nos cafezais brasileiros está mais curto, o que significa que as plantas não têm a chance de se recuperar totalmente. Os efeitos de uma seca severa em 2020 e da pior geada em 27 anos em 2021 ainda estão sendo sentidos pela espécie arábica, altamente sensível.
Para reduzir esses impactos, a técnica de adaptação mais usada no Brasil é a irrigação, que permite aos cafeicultores regar suas lavouras durante os períodos mais secos e reduzir o estresse das plantas. Mas cada região tem diferentes suprimentos de água. Entretanto, com o aumento das secas, alguns agricultores estão preocupados com a gestão dos recursos hídricos, exigindo melhores licenças e controle do uso de aquíferos.
Um estudo da Unicamp descobriu que outra técnica de adaptação, o sombreamento, onde árvores maiores são plantadas entre os cafezais para fornecer sombra, pode reduzir a temperatura do ar em 0,6 °C, além de reduzir outros estresses, como o vento e o aumento da umidade do ar.
O sombreamento também evita a degradação do solo, atua como controle de pragas e absorve carbono.
Pesquisas estão se voltando para ajudar a encontrar soluções que não apenas protejam os pés de café de doenças e pragas, mas também os tornem resistentes ao clima.
“O melhoramento genético é desenvolver plantas mais adaptadas a temperaturas estressantes. Essa provavelmente é a técnica mais adequada, só que ela leva um tempo de desenvolvimento, pelo menos quinze anos”, explica Zullo Junior, especialista em agrometeorologia do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Universidade Estadual de Campinas (Cepagri/Unicamp).
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