O que a rastreabilidade do café tem a ver com os trabalhadores?

por | maio 1, 2023 | Curiosidades | 0 Comentários

Texto: Lidiane Moura
Fotos: Charone Borato

Antes de abordar a rastreabilidade do café e suas vantagens, principalmente para compradores que querem se certificar das boas práticas sociais envolvidas no processo, garantindo que notícias como as que vimos recentemente sobre trabalhadores sendo resgatados em condições análogas à escravidão não voltem a acontecer, vamos voltar um pouco no tempo e relembrar como iniciou o trabalho nas lavouras de café?

A força de trabalho utilizada na produção do café foi inicialmente a de africanos escravizados e, até o fim do Império, eles compuseram a maior parte da força de trabalho nos cafezais. Porém, a pressão inglesa pelo fim do tráfico de escravos no Atlântico e as lei de proibição do tráfico, como a Lei Eusébio de Queiróz de 1850, dificultavam o acesso aos escravos. Seus preços subiram, tornando-se uma força de trabalho extremamente dispendiosa. Era necessária outra forma de organizar a força de trabalho nos cafezais, que passasse para a utilização de trabalhadores livres.

A saída foi estimular a imigração de famílias europeias, principalmente em São Paulo. Na imigração, o fazendeiro financiava a vinda das famílias europeias em troca do trabalho em suas lavouras. Esse método inicial ficou conhecido como parcerias. Porém, o não cumprimento de cláusulas contratuais pelos fazendeiros geraram inúmeros conflitos.

A partir desse momento, as parcerias foram abandonadas. O interesse do governo imperial no crescimento da produção cafeeira levou o Estado a financiar a vinda dos imigrantes através de subsídios. Em virtude do maior dinamismo econômico decorrente do trabalhador livre, alguns fazendeiros, principalmente de São Paulo, passaram a defender o fim da escravidão no país.

A primeira lei que pretendia abolir gradualmente a escravidão foi a Lei do Ventre Livre, promulgada em 1871, que assegurava, em tese, a liberdade aos filhos de escravas que nascessem após a vigência da lei.

Em 1885, foi assinada a Lei dos Sexagenários, ou Lei Saraiva-Cotegipe, que libertava todos os escravos com mais de 65 anos.

Em 1888, quando o imperador D. Pedro II estava em viagem na Europa, sua filha, a princesa Isabel, regente do Império, assinou a Lei Áurea, libertando os escravos e abolindo a escravidão no Brasil. Apesar disso, a situação dos africanos no Brasil não foi alterada significativamente, já que não houve um esforço de integrá-los na sociedade, mantendo-os marginalizados, sem acesso a terra e, muitas vezes, desempregados. Situação que se arrastou por toda a história subsequente do Brasil.

Mas, afinal, o que a rastreabilidade confere?

Rastrear os lotes de café na propriedade é uma prática agronômica e de gestão que permite o controle total dos processos de produção, ajudando o produtor a vender muito melhor os seus grãos, além de ser uma exigência cada vez mais demandada pelo mercado comprador. É também um processo indispensável quando o cafeicultor quer certificar seu café ou produzir grãos especiais. E mesmo sem a certificação, há compradores que já oferecem preços melhores ao produtor, simplesmente pelo fato de ter os lotes rastreados.

Quais são os principais passos para rastrear os lotes de café?

Os especialistas dizem que é simples rastrear os lotes, já que não é preciso ter um arsenal tecnológico para isso. A base do processo pode ser feita manualmente, anotando dados dos talhões. Para pequenos produtores isso pode ser feito no chamado caderno de campo. Mas no caso de médios e grandes, o engenheiro agrônomo Eduardo Bianchi recomenda o uso de fichas que devem ficar em algum suporte protegido, até mesmo um cano em PVC, para proteger da umidade, próximo de cada etapa do processo de produção. Um passo importante é estabelecer a divisão dos pés em talhões, de acordo com suas características, por exemplo, se são cultivadas três variedades de café em área pequena, é preciso dividir a área em três talhões.
Nas fichas ou no caderno é fundamental anotar o que, quando, como, onde e por quem cada etapa da produção foi realizada. Portanto, na ficha o produtor vai anotar o nome ou número do talhão e a data em que cada ação foi feita, como por exemplo, encaminhar aquele café para a moega. Assim que o café for processado e seguir para o terreiro, repetir o mesmo procedimento, anotando na mesma ficha a data, qual talhão, quem manipulou, além de indicar o número do terreiro caso haja mais de um na propriedade.

O que a rastreabilidade do café tem a ver com os trabalhadores?

Quando for para o secador, novamente instale um suporte para deixar a ficha ali próxima e anote tudo, até ir para tulha de descanso.
No período da colheita, é fundamental identificar os lotes no terreiro, o que pode ser feito de uma forma simples, marcando os grãos com algum recipiente com um número dentro, por exemplo. É importante ainda que o produtor tenha o laudo da bebida de cada talhão, com análise sensorial e física, como o tamanho do grão e a peneira. Se for usar uma tulha grande, com vários lotes a serem beneficiados de uma vez, pode-se grampear as fichas e deixá-las todas no mesmo suporte. Dados sobre umidade, por exemplo, também são registrados aqui.
Em paralelo, o cafeicultor deve fazer o chamado “registro de aplicações” em uma ficha separada, que não precisa ficar ao lado dos lotes. Neste documento deve-se anotar todos os produtos que tenha sido aplicados na plantação como fertilizantes e defensivos agrícolas. Também deve ficar registrada a data da aplicação e o responsável pelo serviço, podendo constar até o tipo de contrato, já que muitas empresas podem solicitar este tipo de informação com o objetivo de comprovar a sustentabilidade social daquele café.

Fonte da Foto: A Lavoura

O produtor pode recorrer à ajuda de órgãos de extensão, como a Emater, que disponibiliza planilhas e métodos para a rastreabilidade em seus escritórios regionais.

Já ouviu falar sobre blockchain?

O blockchain é uma tecnologia emergente inovadora que faz com que a rastreabilidade do café se torne mais segura e eficiente, já que cada lote rastreado passa a ter uma identidade única e imutável. Além disso, a responsabilidade da informação é dividida entre os elos da cadeia, que devem atualizar as informações relativas a cada fase da jornada do café, garantindo a integração das informações de forma segura e transparente, e facilitando assim o acesso aos mercados mais exigentes.

Rastreabilidade

Como a tecnologia blockchain permite a validação por meio dos cruzamentos independentes de diferentes fontes, o link das informações só acontece se houver 100% de conformidade entre todos os dados padronizados, garantindo assim, que não haja interpretação pessoal ou cultural nos dados.  É, portanto, uma fonte única de verdade, mesmo que isso envolva a participação de diferentes organizações ou pessoas, o que possibilita a transparência e validação na cadeia.

Por meio da rastreabilidade, é possível garantir o controle de todos os processos produtivos e industriais de dos produtos e o blockchain vem no intuito de otimizar essas informações, incluir os produtos na cadeia, ligando assim os seus elos.

Outro fator diferencial do blockchain, é a impossibilidade de deletar os dados incluídos. É possível ajustar alguns detalhes, mas a informação fica armazenada, não sendo perdida. Isso, além de dificultar a manipulaçãodos dados, exige que todos os atores envolvidos na cadeia sejam mais eficientes e precisos, já que precisam repensar sobre seus processos internos para incluírem os dados com confiança.

Repensar o processo interno não é mudar o que você faz, mas ajustar e dominar o que já tem disponível, para ser capaz de identificar quais informações são relevantes para o seu negócio. O papel do blockchain é dar visibilidade para aquilo que você já está fazendo. A intenção é, portanto, valorizar a rastreabilidade e os procedimentos internos, bem como dar visibilidade às pessoas envolvidas no processo e às métricas de sustentabilidade. É uma maneira de validar para o mundo aquilo que já está sendo feito, trazer clareza nas operações e agregar valor aos envolvidos.

As tecnologias estão cada vez mais presentes em nossos meios. A internet e a energia, por exemplo, são conceitos complexos, mas todos nós desfrutamos de seus benefícios. Trabalhar com eles é simples, mesmo que não sejamos programadores de computador, não é mesmo? A tecnologia blockchain segue a mesma ideia. Pode parecer um conceito complexo, mas, assim como a internet, é fácil de usar, sem ser necessário o domínio de suas especificidades.

Qual a principal vantagem de fazer a rastreabilidade do café?

A principal vantagem é o maior acesso a mercados compradores. Alguns podem oferecer prêmios pelo café rastreado, outros apenas exigir esta prática como requisito para fazer negócios.
Mas, independentemente da exigência do comprador, vale lembrar que o sistema funciona como uma espécie de raio X de toda a produção. É possível saber, por exemplo, o motivo de um lote não ter rendido uma bebida esperada, permitindo então a aplicação de medidas corretivas e a consequente melhoria da qualidade, explica Bernardino Cangussú, coordenador estadual de cafeicultura da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater -MG).
Outra vantagem está relacionada a qualidade. O produtor que faz a rastreabilidade de seus lotes e consegue comprovar o diferencial de qualidade dos grãos, o comprometimento com as práticas sociais e ambientais, pode conseguir prêmios sobre a comercialização do seu café.

Por isso, a Cafés do Brasil Club, uma empresa comprometida com as questões sociais, ambientais e econômicas, que acima de tudo, repudia qualquer situação de violação dos direitos humanos, faz questão de adquirir lotes rastreados, pagando inclusive, por isso, um valor superior ao preço de mercado. Reforçamos nosso compromisso de acompanhar de perto a origem dos nossos grãos e seguimos firmes com o propósito de impactar positivamente a sociedade como um todo.

 

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